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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Beliscões de Chocolate

   Foi um daqueles beliscões dados sem força, mas que fazem os olhos se encherem de lágrimas. E era naquela parte "carnuda" do braço, logo abaixo da axila. Doeu. 
Toda vez que Maria Luísa se lembrava daquele beliscão que sua mãe lhe dera no meio do mercado, ela ria. E depois, olhando para seu filho Pedro gritando por um doce, invejava a liberdade dos pais de antigamente.
Maria lembrava até o ano: 1994. O Brasil acabara de perder a final da Copa e seu pai ficara quieto e reservado pelo resto da semana, até sua mãe começar a reclamar. Maria Luísa nunca vira o pai tão alterado, gritando até ficar roxo. Depois da discussão, a mãe pegou sua mão e levou-a para comprar o jantar.
No mercado, Maria vira um chocolate caro e pediu para levá-lo, porém sua mãe soltou um seco “não”. Mas Maria estava decidida e, jogando-se no chão, começou a gritar que queria o chocolate.
De repente, duas mãos frias como gelo agarraram seus braços e puseram-na em pé. E, antes que ela pudesse voltar a gritar, as unhas longas como garras de sua mãe apertaram a carne de seu braço e torceram-na. Maria mordeu a língua, certa de que, se soltasse mais um som, a dor fulminante prosseguiria.
Aquela fora a última vez. Por mais que quisesse algo, quando a resposta era “não”, era “não” e ponto final.
E agora, mãe de um menino de oito anos no ano de 2011, quis muito dar um beliscão nele para que “tomasse jeito”.
“Mas agora não pode.” Ela pensou, aproximando-se do filho. “É crime.” Maria ajoelhou-se à sua frente e ele parou de chorar. “Quem os políticos pensem que são para me dizerem como educar meu filho? Será que eles não sabem a diferença entre dar um beliscão e surrar a criança até ficar roxa? Não são eles que passam vergonha nestas horas.”
Maria Luísa olhou fundo nos olhos de Pedro e, com toda a calma do mundo disse:
-Eu não vou comprar o chocolate. E se você não parar de chorar agora, eu vou embora e lhe deixo aí.
Pedro voltou a chorar. Muito paciente, Maria Luísa levantou e, empurrando o carrinho, seguiu pelo corredor como se não ouvisse o choro.
Mal havia entrado em outro corredor quando sentiu Pedro segurando sua perna e, olhando para ele, viu-o analisando com muito interesse os tomates que acabara de pegar.

Fim

1 comentários:

Daniella Midori S. D. disse...

Vc escreve muito bem, Gabi!

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