Welcome to my blog, hope you enjoy reading :)
RSS

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O sonho

-Corra Roxanne! Corra!
David pegou minha mão e puxou-me na direção do mar. Concentrei-me na corrida, por mais que eu quisesse olhar para trás e observar a cidade que caia sobre nossas cabeças. Todas as pessoas que ali moravam corriam desesperadas para salvarem suas vidas. No meio do caminho, senti os músculos das minhas pernas queimarem e suplicarem para que eu parasse, mesmo assim prossegui ao lado de David.
Quando chegamos ao mar, saltamos na água fria e agitada. Entretanto, enquanto afundávamos, uma estranha sensação foi subindo pelo meu corpo. Não sentia mais minhas pernas e meus braços. Na verdade, eu não sentia meu corpo. Não o reconhecia. Sentia-me encolhida, impossibilitada, incapaz. Eu olhei desesperado para David, esperando ajuda. Mas o que estava ao meu lado chocou-me profundamente.
Um golfinho imóvel encarava-me sem emoção. Um longo cetáceo cinzento e comprido, de cauda fina e graciosa, olhos negros fundos e inexpressivos. Eu sabia que era David, mesmo eu não sabendo quem era David. Eu o conhecia, amava-o com cada fibra do meu corpo, mas não me lembrava da onde o conhecera, nem por que o amava tanto, nem me lembrava por que eu estava naquela cidade que tão repentinamente começou a cair.
O golfinho, com seus movimentos doces e delicados da cauda, nadou até a superfície. Eu fui junto, sem saber como. Quando chegamos à superfície, senti que tudo voltava ao normal, senti meus cabelos em meu rosto e minhas pernas e braços se debatendo para me manter ao ar livre.
Um braço de David agarrou-me e colocou-me sobre um pedaço de madeira que flutuava naquele mar ondulado. Eu segurei-me nele com desespero, sem saber o que estava acontecendo. David aproximou-se da plataforma flutuante e apenas apoiou-se nela. Atrás dele, eu via a cidade saindo sobre o mar como pedaços de um dominó.
Cansada daquele circo de horrores, voltei meus olhos para David. Passei a mão em seus cabelos negros, afastando-os de seus olhos azuis. Ele parecia exausto, fatigado, abatido... Passei minhas mãos pelos seus ombros e pelo seu pescoço. Senti sua rigidez, sua tensão, seu temor. Senti também toda a adrenalina emergente que o mantinha em estado de choque.
Subitamente, uma coisa agarrou-me minha perna e apertou-a com tamanha ferocidade que me fez gritar de dor. O rosto de David ficou branco, esta foi a última coisa que vi antes da coisa puxar-me para o fundo do mar.
Fui sendo arrastada pela coisa que apertava ainda mais minha perna. Quando olhei para baixo, vi que se tratava de um enorme tubarão-branco, um extremamente enorme tubarão-branco. Ele tinha sues dentes afiadíssimos cravados em minha panturrilha.
De súbito, um golfinho fincou suas minúsculas presas em uma das nadadeiras do tubarão. Este último soltou minha perna e voltou-se para o golfinho, que se afastou velozmente.
Quando o tubarão soltou minha perna, novamente aquela sensação de encolhimento foi tomando conta de mim. Desta vez, eu me analisei. E vi que também era um golfinho, um cetáceo cinza e longo.
O tubarão virou-se para mim e novamente o outro golfinho investiu nele. Mas era uma armadilha: quando o golfinho aproximou-se, o tubarão virou-se para ele e abocanhou seu estômago. O golfinho começou a se debater para livrar-se, mas o tubarão cravou seus dentes fundo e não o soltou.
Desta vez, eu investi ferozmente. Golpeei o tubarão nas costelas com a toda a minha força usando meu focinho. O tubarão soltou o outro golfinho, que mordeu novamente sua barbatana. O tubarão virou-se para ele, mas o golfinho desviou-se e veio na minha direção. Empurrou-me com seu focinho para longe do tubarão, que segui-nos por alguns metros, mas logo desistiu.
Nós dois nadamos por metros e mais metros, até chegarmos a praia. David voltou a ser homem e caiu na areia, quase inconsciente. Eu deitei-me ao seu lado e o abracei, sem saber o que fazer para mantê-lo vivo.
Beijei seu ombro. Beijei seu pescoço. Beijei seus lábios. Mas não foi um beijo de dor. Foi um beijo de paixão, amor e carinho. Eu não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, mas sabia que poderia perdê-lo e isso fez meu coração pular de dor. Beijei com força e David retribuiu com a mesma intensidade. Abraçou minhas costas e apertou-me. Eu, por outro lado, agarrei seu pescoço e recusei-me a solta-lo. Estava com medo.
Quando David afastou o rosto, ele sussurrou:
-Minha Roxanne... Minha eterna Roxanne...
Beijei-o de novo. E de novo. E de novo. Beijei-o infinitas vezes. Até que ele afastou-me e levantou-se, sem mostrar dor nenhuma, mesmo que seu ferimento no dorso estivesse expelindo sangue.
-Vamos, minha Roxanne. Temos que ir.
Ele estendeu a mão e eu a peguei. Levantei-me. Juntos e de mãos dadas, caminhamos pela praia como um casal adolescente. O som do mar, a luz do sol, o nosso amor... Era tudo tão tranquilo e calmo, como se não tivesse ocorrido nada minutos antes. 
Ainda não compreendendo nada, perguntei a David:
-Isto é um sonho?
Ele não me respondeu. Apenas olhou para mim, sorrindo, e eu retribui. Olhei para o horizonte. Talvez fosse apenas um sonho.
Talvez... 

Fim

1 comentários:

Daniella Midori S. D. disse...

Eu acho que este conto daria um bom livro se vc colocasse um pouco a mais antes e depois dessa cena. Achei muito interessante..

Postar um comentário