O corredor era escuro, mas o lampião iluminava-o. O vento passava sorrateiro como uma serpente, zumbindo pelas paredes descascadas, dizendo que o fim estava perto, mas por mais que andasse, o corredor continuava se alongando numa curva interminável. Não havia janelas, nem portas, apenas longas paredes que se estreitavam e tornavam a caminhada sufocante.
Foi quando finalmente o corredor acabou em uma porta. O vento passava forte por entre os vãos, como um garoto arteiro que expia pela fechadura.
O vento soprou um pouco mais forte e apagou o fogo da lamparina. O breu dominou o lugar, o que aumentou a sensação de frio e de solidão. Por longos segundos, precisou ficar parada no meio do escuro, até finalmente achar a maçaneta e abrir a porta. A luz da lua iluminava a longa floresta que ali se encontrava, escondida atrás daquele imenso corredor.
A neve caía tão lentamente e aconchegante que parecia apenas pedaços de algodão. O clima era agradável, não algo frio e duro como era no inverno, mas sim o gelo doce e puro da primavera. Seria capaz de sentir o gosto das flores nos flocos.
Foi quando o lobo apareceu saltitante por entre os montes acumulados de neve. Ele era branco, com olhos azuis imensos, a língua sempre pendente para um lado. O lobo aproximou-se dela e lambeu-lhe os dedos calosos. Depois começou a pular a sua volta, mordiscando sua perna e latindo alto. Atiçava-a para brincar?
Subitamente um uivo cortou seu corpo em dois. Não vinha do belo lobo branco que brincava a sua frente, mas vinha de algum ponto da floresta. Algum ponto bem perto. E não era um uivo lamentoso ou apaixonado, mas um uivo de alerta, de perigo. No momento em que ouviu o som, o lobo parou de saltitar e levantou as orelhas, preocupado.
Não se lembrava bem de onde apareceram os outros lobos, mas eles de repente formavam um círculo à sua volta, rosnando e ameaçando. Eram todos negros, sombras que surgiam e desapareciam na imensidão da floresta. Eram muitos, completamente... Mortais.
O lobo branco rosnou para o que seria o alfa da alcatéia. Era o maior, com a pelagem mais escura do que todos. O alfa rosnou como resposta. Os dois trocaram rosnados por longos minutos, até que o alfa respondeu algo que não agradou nem um pouco o lobo branco. Este latiu, irado, e avançou sobre o outro lobo. Os dois se atracaram e começou uma batalha sangrenta, onde nuvens de neve se levantavam e se agarravam aos pelos das duas feras.
Mesmo sendo apenas uma telespectadora, ela podia sentir a dor causada pelas mordidas. Aqueles dentes enormes e pontudos penetravam fundo na carne, fazendo a bela pelugem dos lobos serem tingidas de vermelho, assim como a neve.
Não demorou muito para a luta ser decidida. O lobo branco, em um golpe de sorte, alcançou a garganta do adversário e, em uma única (e bela) mordida, sufocou o oponente, fazendo-o se afogar no próprio sangue.
O vencedor levantou-se orgulhoso sobre o cadáver do inimigo e uivou em triunfo. O resto da alcatéia baixou a cabeça e colocou o rabo entre as pernas.
Quando terminou sua canção, o lobo aproximou-se novamente e em seus sábios olhos azuis, ela pode ler o que ele queria dizer:
-Junte-se a nós.
Juntar-se? Como?
-Apenas junte-se...
Ela deu-lhe as costas e entrou novamente no corredor. Sentiu os olhos do lobo em suas costas, como uma interrogação. Ainda não... Juntar-se-ia mais tarde, quando pudesse vencer como o lobo.
Ela virou-se para o lobo branco e sorriu. Mais tarde, quando fosse oportuno. Quando fosse uma vencedora.
Ela fechou a porta, escondendo-se na escuridão, e, guiada pelo vento, voltou.
Para onde?
Fim


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